24 de Novembro, 2020

Como as redes neutras podem transformar a internet no Brasil

O modelo comercial de rede neutra pode impulsionar a concorrência de banda larga no Brasil

A remodelação da Oi deu destaque ao conceito de redes neutras para o dia dia brasileiro. A operadora quer modificar toda a infraestrutura da Oi Fibra em uma empresa aberta para outros provedores de internet. Concorrentes como TIM e Vivo, defendem o modelo, já que também planejam se arriscar no formato.

Com esse tipo de rede fica permitido que diversas operadoras atuem com uma mesma infraestrutura, permitindo otimizar os investimentos e ampliar a concorrência de internet banda larga no Brasil.

O que são as redes neutras

São redes que podem ser fixas ou móveis e atendem diversos operadores de telecomunicação sem discriminação, lembrando o compartilhamento das torres de telefonias móveis, que é amplamente adotado no Brasil, defendido pelas operadoras e incentivado pela Anatel. O que ajuda a comprovar o valor do modelo para o setor.

Na prática, um operador neutro permite que várias companhias utilizem a mesma infraestrutura, podendo ser fibra óptica, cabos metálicos, redes móveis ou satélite, inclusive. Qualquer empresa que esteja interessada em se tornar um provedor de internet pode, de forma simples, alugar a capacidade dessa rede e cobrir cidades inteiras sem gastar dinheiro algum com rede própria.

Para o consumidor final, o serviço é claro e o usuário nem mesmo necessita saber que está conectado em uma rede neutra. O atendimento é feito pela operadora contratada, desde a instalação até o suporte técnico. Diversas empresas conseguem operar no mesmo cabo devido a tecnologias como VLANs, que permite a criação de redes virtuais na camada de enlace.

Vale ressaltar que as redes neutras são totalmente diferentes das operadoras virtuais, que as companhias-mãe revendem a infraestrutura existente sem o controle e gerência de rede. As redes neutras fazem grandes investimentos na infraestrutura de telecomunicações e vendem esta capacidade para vários 'inquilinos'. Assim, conseguem ter acesso a capital de forma mais econômica e otimizada do uso da infraestrutura construída.

A demanda por internet fixa aumenta cada vez mais no Brasil. A Anatel divulgou que de agosto de 2018 para o mesmo período em 2020, houve um aumento de 3, 5 milhões de acessos de banda larga.

O crescimento de deve, principalmente, aos pequenos provedores, que desempenharam um papel fundamental para a popularização de fibra óptica no Brasil. Em 2018, 18,6% de todas as conexões no país utilizavam o formato FTTH; no ano seguinte, o número saltou para 31,5%, e atualmente, a fibra óptica já chega em 41,3%.

Contudo, as grandes operadoras ainda não conseguiram atingir o mesmo patamar de fibra: em 2018, Claro, Oi, TIM, Vivo e Algar tinham apenas 10,9% de acessos com fibra; em 2019, o número aumentou para 19,2%, enquanto em agosto de 2020 são 27,5% de conexões FTTH. Parece uma grande alta, entretanto, esse número está inflado pelas desconexões do cobre: juntas, essas operadoras maiores perderam quase 5 milhões de clientes de banda larga fixa com tecnologia legada entre 2018 e 2020.

A Oi já compreendeu que as velocidades oferecidas no cobre não atendem às expectativas do consumidor, parando de vender novos acessos com tecnologia xDSL e concentrando praticamente a totalidade de seus esforços na construção da rede de fibra. A Vivo igualmente tem feito a sobreposição da rede de cobre nas áreas da GVT e da Telefônica de São Paulo, porém de forma mais devagar.

A única operadora grande que está numa posição favorável é a Claro, que utiliza cabos coaxiais na maioria dos municípios. Essa tecnologia permite entregar velocidades de download equiparáveis às de fibra óptica graças ao padrão DOCSIS 3.1, mas com o ônus de velocidades de upload baixas e interferências eletromagnéticas, que não ocorrem na fibra. A própria empresa já adota fibra nas localidades entrantes , e provavelmente, logo passará a atender as regiões mais rentáveis de grandes cidades com FTTH.

Ainda assim, as grandes operadoras necessitam da fibra para conter a queda nos acessos e seguirem relevantes no mercado de telecomunicações. A adoção das redes neutras permite que as companhias maximizem seus investimentos, seja aumentando a ocupação das portas de fibra ou alugando a infraestrutura neutra de outras empresas.

Pietro Labriola, CEO da TIM, revelou ter mais de 20 acordos de não-divulgação para construção de rede neutra, com parceiro puramente financeiro e, também, parceiro industrial. Lembrando que, no passado, o executivo não descartou que a TIM pudesse se tornar cliente da InfraCo , alugando a infraestrutura neutra da Oi para chegar a mais clientes.

Redes neutras permitem otimizar o investimento

As redes neutras trazem vantagens, tanto para a dona da infraestrutura quanto para quem aluga. A adoção do modelo permite uma redução de custos para todos os envolvidos, permitindo que a empresa destrave seus investimentos, atraindo novos investidores, acelerando o capex e expandindo a rede de fibra.

Perceba que, essa expansão pode ser algo positivo para a inclusão digital no país, pois, com esse modelo, é possível reduzir investimentos redundantes nas redes de transporte. E os prestadores de serviço podem focar seus investimentos e atenção no seu serviço core. Consequentemente, haverá melhor competição com maior qualidade e preços competitivos.

É claro que, com mais concorrência, a rede ficaria mais "cheia". Contudo, os critérios de dimensionamento devem sempre prever a demanda.

"A ideia de ter uma maior ocupação é diminuir a ociosidade, buscar sinergia nos investimentos e não de ocupar as redes além de suas capacidades. Por exemplo, ao invés de lançar dois cabos de fibra óptica ao longo de uma rodovia, você pode lançar apenas um e colocar um equipamento mais potente nas pontas para atender mais de um cliente", afirma Rogério Takayanagi, vice-presidente de Estratégia e Transformação da Oi.

Solução de problemas urbanos

A grande desorganização dos cabos de postes de energia seria um possível problema a ser solucionado com a hipotética adoção massiva de redes neutras. Contudo, as concessionárias de energia são as donas desses postes, que são alugados para operadoras pendurarem seus cabos de telecomunicações.

As regras da Aneel permitem que cada poste tenha uma faixa de 50 cm para acomodar até cinco pontos de fixação para serviços de telecomunicações. Entretanto, não é o que percebemos, há locais em que uma única operadora extrapola sozinha a capacidade permitida, e também há regiões onde existem mais de cinco provedores de internet.

Dessa forma, novas operadoras esbarram em dificuldades para instalarem sua infraestrutura, uma vez que a companhia de energia não irá alugar seus postes enquanto as empresas atuais extrapolam a capacidade máxima. Por isso que vários provedores pequenos utilizam os postes de forma irregular e já tiveram seus cabos cortados.

Com inúmeras operadoras compartilhando os mesmos cabos de fibra óptica, seria possível remover diversos fios dos postes de energia. Inclusive, essa é a sugestão da Superintendência de Competição da Anatel, que aconselha um operador neutro para lidar com ocupação desses postes. Do contrário, a agência prevê um custo de R$ 20 bilhões para reorganizar os cabos de telecomunicações em mais de mil cidades do país.

Redes neutras em outros países

Para se tornar um provedor neutro, a Oi decidiu aderir a separação estrutural da empresa. A InfraCo será a unidade produtiva isolada responsável pela construção e gerenciamento da rede de fibra, já a ClientCo será a dona dos clientes da operadora. Para isso, Takayanagi diz haver inspiração da OI em operadoras de países como Austrália, Índia, Itália, Reino Unido e Tchéquia.

Contudo, a separação estrutural de uma operadora que já existe não é o único formato efetivo. É possível criar uma rede neutra do zero, sem companhias telefônicas envolvidas, em que o provedor ou o próprio cliente paga o aluguel da infraestrutura de fibra. Por exemplo, a Open Fiber, empresa italiana agnóstica, leva infraestrutura óptica para centenas de cidades, atendendo mais de 150 diferentes provedores de internet. Não são todos que estão disponíveis em qualquer município, mas cada empresa tem diferentes planos, valores e qualidade de acesso. A fibra atualmente suporta velocidades de até 1 Gb/s para o consumidor final.

Outro exemplo válido, é a Utopia Fiber, atuante nos Estados Unidos em localidades selecionadas do estado de Utah. A empresa cobra a mensalidade do cliente de banda larga que quer utilizar a rede, e o acesso à internet é cobrado de forma separada pelo próprio provedor. Cada operadora tem seu próprio preço, qualidade de acesso e serviços adicionais, que oferecem velocidades de 250 Mb/s até 10 Gb/s.

Fonte: Prosper Capital, com informações Tecnoblog
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